segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Vata e a noite mágica

Esta semana o jornal O Benfica publica uma reportagem com Vata. O Homem que marcou o golo, com a mão, ao Marselha nas meias-finais da Taça dos Campeões Europeus de 1989/90. Vata afirma que o golo não foi com a mão!
Logo na 1ª época no Benfica, foi Bola de Prata com 16 golos. Não era um jogador preponderante na equipa, mas era um jogador que não virava a cara à luta e era persistente nos lances disputados.
O jogo com o Marselha perdura na memória de muitos Benfiquistas, pois ficaria marcado na história mágica do SLB.
Eu estive lá. 18 de Abril de 1990. Tinha 12 anos.
Eu e mais 4 amigos combinámos ir ao jogo. Ainda era na altura em que pedíamos a um adulto se podíamos entrar com ele, e chegado junto do porteiro, o adulto lá dizia que era filho e assim conseguíamos entrar no Estádio. Eu era sócio isento de quotas, mas este era o método habitual de amigos que não o eram.
Devido à nossa idade e ao facto de o jogo ser à noite, os nossos pais queriam que fossemos com algum adulto conhecido. Sem problema. O pai do Hugo também ia. À tarde fomos ter com ele à barbearia, de que era dono, na Estrada de Benfica. Chegada a hora, fechou o estaminé e de seguida foi até ao café. Nós não quisemos ir, estávamos ansiosos era para ir para o Estádio, e ficámos na brincadeira, ali na rua. Quando saiu, já vinha “torto”.
Depois de termos visto tantas e tantas pessoas de cachecol ao pescoço a ir na direcção do Estádio, tinha chegado a nossa vez de fazer a romaria à Catedral.
Quando chegámos a uma das rampas de acesso ao Velhinho 3º Anel, o porteiro barrou a entrada ao pai do Hugo e consequentemente a todos nós. Então não é que o homem não tinha comprado bilhete e queria entrar sem pagar porque era Águia de Prata!! E ainda por cima com 4 “filhos” e embriagado!! E lá insistia ele: “trouxe os meus filhos à bola, sou Águia de Prata e o senhor não nos deixa entrar?!” O porteiro olhou para nós e viu bem as “parecenças” entre todos: todos dentro da mesma idade, um alto de cabelo escuro, outro de cabelo mais claro, outro de olhos azuis e outro…preto. Ainda pensámos em dizer que éramos gémeos falsos, ou então filhos do mesmo pai, mas de 4 mães diferentes, mas não valeria a pena. O porteiro às tantas disse de forma peremptória:” O senhor não pode entrar e dos miúdos só entra quem for sócio”. Todos sabiam da minha situação de sócio e logo me disseram para entrar, que eles iam tentar entrar noutra porta e encontrar-nos-íamos lá dentro. (Não os encontrei e soube no dia seguinte que não conseguiram entrar e foram todos para casa).
Assim que cheguei ao interior do Estádio, este estava praticamente cheio. Com o aproximar da hora do jogo…encheu.
Ali estava eu sozinho no 3º Anel a fazer parte do Inferno da Luz. Desculpem, nunca estive nem nunca me senti sozinho, estive sempre com uma família de cerca de 120 mil Benfiquistas.
Os minutos iam passando. Os nervos eram muitos, a ansiedade apoderava-se das pessoas, o apoio ao Benfica era total, as unhas já eram mínimas, o cachecol farto de ser apertado, o coração que quase saía do corpo de tanta palpitação, o resultado que não se alterava desde o minuto inicial…
E depois, lá no alto do “céu”, ao minuto 83, vi o momento mágico.
A bola entra dentro da baliza do Marselha. Vata marca golo.
Foi o perfeito d-e-l-í-r-i-o.
Tudo aos pulos, tudo a gritar, braços no ar, vozes bem altas, abraços sem fim, lágrimas nos rostos, olhos postos no Céu, beijos no cachecol, “Benfica, Benfica, Benfica…”
Foi golo com a mão? Sei lá, eu só vi a bola entrar.
Nesse dia senti-me o miúdo mais feliz do Mundo. Fui para casa com o maior sorriso do Planeta. Lembro-me de estar à espera do autocarro, olhar para trás (para o Estádio) e sentir que tinha assistido a uma noite mágica.
A partir desse dia, Vata passou a constar nas escolhas de nomes das nossas peladinhas.
PS: Os franceses chamaram-lhe a mão do diabo.
Nós chamámos-lhe magia.
PS2: O Marselha tinha jogadores de referência que gostávamos de ver jogar e que tínhamos acesso a mais informação através da revista Francesa “Onze”: Papin (l’enfant terrible), Chris Waddle (que pontapé), Tigana, Deschamps e Mozer, sim o Nosso Mozer.
VIVA O BENFICA

5 comentários:

josé carlos soares .˙. disse...

Eu também lá estive a trabalhar e meu Deus como gritei...parecia que estava possuído.eheheheh

Carlos Machado Acabado disse...

O Vata!...
Mais um que o Clube inexplicavelmente pôs na lista dos "malditos"...
Por uma razão qualquer que ainda hoje ninguém terá conseguido perceber, o Toni deixava-o no banco e só o metia já o jogo ia a meio.
Pois, o bom do Vata entrava e zás! Marcava!
Ganhou a Bola de Prata como suplente...
Há "coisas" no Benfica que... meu Deus!... Não se explicam, pronto!
Foi o Vata, foi o Amaral, foi, noutro âmbito o Jardel (que podia ter mudado de forma radical toda a História recente do Clube!), foi, antes dele, o Ulf Kirsten (que o Damásio andou a "cheirar" e a "fazer-se esquisito" e era um marcador de golos notável que, também ele, podia ter ajudado a escrever uma outra História do B enfica dos nossos dias), é agora "aquilo" do Cardozo... enfim...
É preciso ser um Clube (mesmo!) muito grande para cometer tantos erros, uns atrás dos outros, e seguir sendo o Maior!
É o que nos vai consolando...

Sou de um Clube Lutador disse...

Caro José Carlos Soares,
Foi uma noite maravilhosa em que o Estádio quase foi abaixo.
Que saudades das grandes noites europeias (das grandes mesmo, daquelas a que íamos até ao fim da competição).
Abraços
PS: Tive pena que a sua coluna "Bastidores" no CM Sport tenha acabado. Foram contadas histórias bem engraçadas e encavacadas.

Sou de um Clube Lutador disse...

Caro Carlos Machado Acabado,
Realmente lembro-me do Vata ser um jogador pouco utilizado, e também me lembro de ele marcar no pouco tempo que estava em campo.
Mas é como o Senhor diz: "É preciso ser um Clube (mesmo!) muito grande para cometer tantos erros, uns atrás dos outros, e seguir sendo o Maior!".
Erros de casting foi o que não faltou nos últimos anos.
Abraços
..

Carlos Machado Acabado disse...

Pois, Amigo "Sou de um Clube Lutador" e no Domingo lá teremos de ir ganhar à Galiza, não é?...
Um abraço, também!